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O que aprendemos (ou não) com a compra do Instagram pelo Facebook

Antes de qualquer coisa, é uma honra escrever sobre empreendedorismo e negócios aqui no Café com Blogueiros, em torno de uma órbita de gente tão bacana querendo fazer diferente no nascente e efervecente mundo digital. Todos que aqui escrevem são empreendedores e numa trajetória de sucesso. Ficou a meu cargo falar da faceta business do mundo digital, e trazer insights com base nas traquinagens que apronto por aqui (grupos de empreendedorismo que coordeno na ESPM, projetos pessoais, etc) e que o mercado apronta por aí. Espero que gostem e palpitem!

Isto posto, vamos ao texto. O segundo, porque Mr. Zucka e Michel “Mike” Krieger resolveram derrubar minha pauta inicial, esses traquinas. :D

Espero que ninguém (ainda) se iluda que pode fazer uma startup bacana, conseguir muito dinheiro de investidores e em 18 meses vender a empresa por US$ 1 bilhão, como foi o  caso do Instagram. O único caso anterior notório de trajetória meteórica de uma startup foi o do You Tube, adquirido pelo Google com o mesmo tempo de vida, mas valor 80% maior.

Mas o Instagram é um caso de sucesso de empresa digital, e vamos aproveitar o alarde sobre sua venda, principalmente porque tem um brasileiro na parada (e não é que o cara vira capa da Veja na semana da venda?) e porque qualquer usuário mediano do iPhone (e agora do Android) tem o seu exemplar instalado.

 

 

Das grandes aquisições da Internet, apenas o You Tube possui perfil parecido com o Instagram: em menos de 18 meses atingiu valoração final acima de US$ 1 bilhão.

 

Vamos lá? Aqui alguns insights sobre o por quê da trajetória impressionante do Instagram do lançamento até a venda ao Facebook:

1) Foque no problema, não na solução. Vou começar pelo o que deveria ser o final. O conselho mais importante para quem quer empreender é: ENCONTRE UM PROBLEMA, NAO UMA SOLUÇÃO. Parece estranho, mas tem sentido: uma solução pode não ser a mais adequada para um problema, mas um problema identificado pode proporcionar uma infinidade de soluções. Mike e Kevin Systrom tiveram sucesso no Instagram porque ele resolve um problema significativamente grande e real do usuário de smartphones: a necessidade de aplicar efeitos e compartilhar fotos instantaneamente.

2) Adote o KISS para sua empresa – Calma, não estou falando para contratar o Gene Simmons para ser o garoto propaganda – seria bacana, porém caro. O KISS que estou falando é o KEEP IT SIMPLE STUPID! :D Outro trunfo do Instagram é a simplicidade. Não tem erro: tire a foto, agregue  efeito, crie um texto (ou não) e compartilhe (ou não). No big deal. As grande redes já compartilhavam fotos do celular, bem como Photoshop e outros davam centenas de opções de efeitos, mesmo em versão mobile, mas o Instagram juntou estas funções de maneira simples, espartana e fácil de adotar. Como diria o Barão de Cupertino Steve Jobs, “tem de ser uma gadget/aplicativo que qualquer idiota consiga mexer direito”.

 

 

Assim como Gene Simmons, Steve Jobs também e sua Apple é praticante do KISS. Mas de outra maneira... :D

 

3) Deu errado? Ok, refaça com os erros identificados – Alguém conhece (ou conhecia até segunda-feira) o Burbn? Não né? Ele foi um aplicativo criado por Kevin para rodar “como se fosse um Foursquare”, mas direto do navegador do celular. Considerado “pelos amigos” do Vale do Silício complicado demais para o usuário, foi descontinuado logo na chegada de Mike no projeto. Do aplicativo foi identificado que a função de geolocalização e compartilhamento das fotos era bacana, pegaram o aprendizado, simplificaram (KISS!!!) e… 90 dias depois voi lá! Era lançado o Instagram como app para iOS.

4) Construa uma boa rede – Pessoalmente acho este um dos principais desafios de uma empresa novata. E talvez o grande trunfo das empresas tecnológicas do Silício sobre outras ao redor do mundo – a concentração delas numa faixa estreita ao redor de São Francisco fazem com que consumidores normais, pesquisadores de tendências e primeiros usuários estejam próximos, o que acelera qualquer viralização. Os fundadores do Instagram certamente tinham entre amigos próximos os três tipos de pessoas para testarem e disseminarem o seu app. Estamos em processo de construção de um ambiente empreendedor digital brasileiro, portanto mais importante ainda ter uma ótima “teia” de contatos nas três categorias para acelerar a curva de adoção da sua proposta de valor.

5) Investidor quer solução, não problema – Se tem algo que me deixa louco quando vou ouvir alguém que quer empreender é o cabra chegar e falar: “Cara, tenho uma ideia, não posso te falar, mas se eu apresentar para um investidor eu consigo R$ 500 mil para lançar o que em dois anos faturará R$ 100 milhões e vender a empresa pro Google”. JURO que já ouvi isso, e mais de uma vez.

Ele num parágrafo cometeu diversos erros que o Instagram não cometeu. Ou melhor, tentou evitar ao máximo. Veja só:

“…tenho uma ideia, não posso te falar…” Poxa, começou mal. O Instagram simplificou sua ferramenta porque simplesmente ouviu seus potenciais consumidores – amigos, principalmente. É fundamental você testar sua ideia ou modelo de negócio (plano de negócio, TCC, não mais ok?) antes de colocar a mão na massa.

 

 

Para visualizar seu modelo de negócio, uma ferramenta bacana é usar o Canvas do Business Model Generation. Não conhece? Vá atrás!

 

“…mas se eu apresentar para um investidor eu consigo R$ 500 mil…” Você acha mesmo que o investidor, o cara que tem a grana, vai colocá-la no seu bolso só porque a sua ideia, eu disse IDEIA, é bacana? Você acha que ele vai arriscar tudo num insight seu? Bom, vou contar um segredinho: investidor, seja ele anjo ou institucional (venture capital) só aporta grana quando a ferramenta NA PRÁTICA mostra-se já como vencedora. E precisa apenas de escala para chegar às multidões. O Instagram foi nessa linha: o primeiro aporte de anjos foi somente quando atingiram 1 milhão de usuários. Foi cedo, com menos de 6 meses de idade é verdade, mas eles tinham 1 milhão de usuários validando a aplicação. Repetindo: investidor não aposta em potencial teórico, e sim na realidade vencedora. Assim ele mitiga o risco de trocar um investimento de renda fixa (quase 10% aa) por algo que pode lhe dar no mínimo 5x este valor (é o número mágico do setor).

“… R$ 500 mil para lançar…” Por acaso você conquista uma menina(o) comprando um carro importado no primeiro encontro? Nem o Thor Batista com cartão titânio do pré sal faz isso, filhão. O custo inicial para lançamento do Instagram foi ZERO – só mão de obra na programação do app. Depois que vieram domínio e armazenamento na nuvem. Na data da compra ainda tinha somente 13 funcionários. Você provavelmente vai começar zerado ou próximo disso, então maximize esforços, minime todos os custos em prol de uma experiência mais próxima do ideal dentro das possibilidades que o estágio da empresa permita.

- “… em dois anos faturará R$ 100 milhões …” Como você  provavelmente não possui dotes de Mãe Dinah, a chance de você errar é certa. Real é que modelos de negócios realmente inovadores, que podem adotar o termo “Startup” (se você está construindo um e-commerce de livros, amigo, você não tem uma startup, está buscando um diferencial. Sorry!) não tem como mensurar  quanto pode ganhar nos primeiros meses e/ou anos.

E aqui cabe um capítulo especial sobre o Instagram. Ele não gerou um centavo sequer durante sua operação independente. Foi devidamente alimentado pelo seu sucesso como rede de compartilhamento de fotos e as posteriores rodadas de investidores que davam fôlego à operação. Para terem uma ideia da trajetória, em fevereiro de 2011 o site levantou US$ 500 mil em sua primeira rodada, quando chegou a 1 milhão de usuários. Um ano depois a última rodada antes da aquisição o avaliou em US$ 500 milhões. Ou seja, o último a investir teve retorno de 100% em três semanas – nada mal! No fim acabou sendo a melhor alternativa para todos os acionistas – a perspectiva de versões pagas ou de add-ins ao Instagram foi estudada, mas sua eficiência sempre foi questionada.

Este modelo de investimento, com sucessivas rodadas em operações sem geração operacional de renda é normal nos EUA, mas o brasileiro é um investidor notoriamente mais conservador – já tivemos inflação e presidente tomando $ da poupança, ficou o trauma. Logo emplacar um modelo assim aqui é ainda mais complicado – haja vista os questionamentos sobre as empresas do mundo X de Eike Batista ou, pra ficar no digital, do Twitter e Foursquare. Logo se for montar sua empresa, pense com carinho em como gerar $ com ela, ou monetizá-la.

“… para vender a empresa ao Google.” O último erro da frase talvez seja o mais simbólico. Acho que ninguém no #CCBSP ou na nossa conhece pessoalmente o Mike (se conhecerem avisem! Vamos trazer o cara pro evento deste ano! :D), mas garanto que quase impossível que tenha trabalhado quase dois anos num App pensando somente no momento da venda e da grana no bolso (chutaram por aí US$ 100 milhões). Empreender requer paixão e a perspectiva que você “casará” com a empresa “até que a morte os separe”. De preferência a sua porque a empresa pode perpetuar-se. Por isso o conselho blasé de fazer o que gosta; estarás envolvido até o pescoço todos os dias com a sua empresa. Não faça disso uma epopéia, e sim uma diversão. E verás que empreender não é tão difícil quanto pode parecer.

 

Bom é isso. Com esta dissecação do caso Instagram espero trazer insights importantes para você que quer começar a empreender. Leiam, leiam, planejem o suficiente e mãos à obra no mercado.

Para não somente trazer dicas e também fomentar discussões do post… vou deixar meus breves pitacos sobre o futuro da ferramenta. Opinião/palpite meu, ok? Aguardo o de vocês!

- Diferente do Orkut, que o Google comprou pelo mesmo objetivo mas não investiu na rede (há quem diga que o objetivo era matar a ferramenta, mas a base de usuários brasileira não permitiu), o Facebook deve dar uma turbinada no Instagram, mas não sei até quando com este nome – porque não Facebook Photo? Aliás, mais um víes ao G+, rede com quase 100 milhões de usuários, mas baixo tráfego frente ao concorrente.

- O que ninguém falou até agora: Não seria esta compra uma tentativa de combate ao Pinterest, a rede que mais cresce no mundo e pautada em fotos também? Algo me diz que o Instagram deve ir neste sentido, com algumas coisinhas extras. E um background de 850 milhões de usuários por trás.

- O problema de monetização está parcialmente resolvido. Melhor qualidade das fotos = melhor qualidade dos posts, logo maior tráfego e valorização dos Facebook Ads. Sacou a equação? E ainda permite que empresas desenvolvam novos efeitos à rede, no mesmo  estilo Zynga aos jogos.

 

Por esta semana é só. Espero que gostem. Meu facebook é facebook.com/chebante e o twitter @chebante. Ah! Meu Instagram também é Chebante… :D Tchau!

O texto acima não representa a opinião do Café Com Blogueiros. Nosso espaço está aberto ao debate saudável e exposição de opiniões distintas.

João Gabriel Chebante

Para sempre em Beta, empreendedor em pleno aprendizado. Líder de Empreendedorismo do Grupo de Mídias Sociais e Inovação Digital da ESPM (InovadoresESPM) e evangelista do #LivingTheDream

  • http://twitter.com/clientemkt Atendimento Cliente

    Excelente post! Gostei muito da parte do Business Model Design, pois criei um Prezi para um curso que fiz. Vejam o Prezi.
    http://prezi.com/vvljhezie75c/modelo-de-negocios-visual-business-model-design/

    Abraços,
    Marcio Okabe

  • Andres legum

    Suuuper legal, belo texto, vou seguir e compartilhar!!!!

    abs e boa sorte, smepre…KISS!!!!

    : )

  • Nei Grando

    Parabéns Chebante! Excelente artigo, suas observações e comentário são pertinentes e com certeza serão úteis para qualquer aspirante a empreendedor. Veno que você fez mais que a lição de casa em estudo e preparo, agora está na hora de encontrar o nicho e fazer acontecer. um grande abraço, @neigrando

  • Gil Giardelli

    Chebante, fantástico. To na torcida para o #botaprafazer =)

  • http://www.facebook.com/profile.php?id=1326894406 Fabio Marreiros

    Meu nobre Chebante, excelente texto! Sua opinião nos faz questionar dos reais problemas de uma STARTUP, seu discurso e comentários são bem direcionados e com certeza serão úteis para qualquer aspirante a empreendedor. Identificar o problema, esse sim é o diferencial de qualquer STARTUP, depois é só explorar o mercado.

  • http://www.facebook.com/pedro.lalli Pedro Lalli

    Sensacional… Belo Post. congrats! =)

  • http://www.facebook.com/tiagobutzke Tiago Butzke

    Muito bom mesmo. Parabéns pelo artigo.